sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

REFLEXÕES

DE NOVO É NATAL

Não há como fugir, é sina. Tinha jurado para meus botões que não iria mais escrever sobre o tempo de finais de ano, nem mesmo sobre tempo de Natal. Mas de repente, bateu aquela nostalgia, vontade de ser, o que já foi. E, pronto, aqui estou eu a juntar pedaços de tempo, a costurar memórias, que se ficam qual vento, a prelibar em eflúvios de saudade.

Pois o Natal, que havia de ser tempo de reflexão e de homenagear o Deus que por nós se fez menino, não tem mais aquele sentimento de intemporalidade da religiosidade de nossos avós, pois foi transformado naquilo que é o avesso do verdadeiro sentido do que deve ser o Natal.

Árvores coloridas de natal nesta quadra do ano brilham feéricas nas praças, nas ruas, e nas vitrines das casas de comércio, não com a intenção primeira de homenagear o principal aniversariante, mas para atrair mais consumidores, pois nos transformamos numa sociedade de consumo insaciável, e materialista.

O tempo de Natal que devia ser um tempo de reflexão, de espiritualidade, e confraternização não só na família, mas também entre vizinhos e os não vizinhos, tornou-se o tempo do empurra, empurra, nos corredores dos grandes centros comerciais na procura de coisas, na doce ilusão de que mais badulaques cheirando a novo venham a preencher o vazio que se foi acumulando em nós ao correr dos dias durante o ano.

A propósito, tomo aqui emprestado pedaços do poema belíssimo, do poeta Fernando Pessoa cujo título é: Navegar. Extraí alguns excertos do mesmo para que os leitores possam compartilhar desta beleza não só literária, mas também de uma mensagem bem digna deste tempo de Natal. Eis uma pequena amostra: “Descobre-te todos os dias,deixa-te levar pelas tuas vontades,mas não enlouqueças por elas. Dá um sorriso àqueles que se esqueceram como se faz isso. Olha para o lado, há alguém que precisa de ti. Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca! Agoniza de dor por um amigo,só sairás dessa agonia se conseguires tirá-lo, também. Não te acostumes com o que não te faz feliz, revolta-te quando julgares necessário. Enche teu coração de esperança, mas não deixes que ele se afogue nela.Se achares que precisas voltar atrás, volta! Se perceberes que precisas seguir, segue! Se estiveres errado, começa novamente. Se estiver tudo certo, continua. Se sentires saudades, mata-as. Se perderes um amor não te percas”.

...E a vida pode ser bem melhor, bem mais fácil basta que revisitemos a manjedoura de Belém símbolo do desapego dos bens materiais. Orgulho, vaidade são o lado sombrio que torna o homem um tolo, um deus de pés de barro.

O homem vive enquanto a criança que um dia nasceu com ele, viver. O dia em que o homem matar essa criança, morto também ele estará irremediavelmente. Talvez por sentir pulsar esse menino que tento fazer viver em mim, é que me rendo ao fascínio que sinto pelo Natal. Talvez seja a tal saudade que me transporta aos meus natais-meninos em que se festejava e homenageava o aniversariante nascido envolto em trapinhos sobre uma manjedoura, porque seus pais, José e a Virgem Maria não encontraram lugar em hospedaria, e assim tiveram que compartilhar de uma estribaria abrigo de animais.

Assim nos relata a Sagrada Escritura, e mais relata que, anjos entoando cânticos pelos céus anunciaram a humildes pastores que um Deus menino acabava de nascer: ide adorá-Lo. Depois vieram também três reis, guiados por uma estrela, e ali chegando, os ilustres viandantes genuflexos ao menino ofereceram incenso, mirra e ouro.

O Natal de Jesus, enquanto homem Deus é um mistério, embora parte desse mistério já revelado pelo próprio Senhor Jesus. Por outro lado o seu nascimento como ser humano é facto concreto. Não adianta os mais céticos quererem recorrer só à luz da ciência para obter resposta de coisas que estão para além da compreensão humana. Nem para tudo a ciência tem a devida resposta. Onde termina a ciência começa a fé. E ciência e fé não são incompatíveis, muito pelo contrário, elas podem e devem conviver lado a lado e pacifica-mente, para nosso próprio bem.

Um Alegre e Feliz Natal para os crentes e os não crentes. São os meus sinceros votos.